Rio de Janeiro encerra viagem pelo Brasil com experiências educacionais diversas

O Rio de Janeiro foi a última cidade da viagem pelo Brasil. Nestes cinco meses de estrada, passei por quase sessenta cidades e conheci mais de trinta escolas, práticas educacionais e histórias de pessoas que nos inspiram e ensinam muito para a Educação do país.

As práticas que encontrei na capital fluminense resumem parte do que vi durante o caindonobrasil e ajudam a encerrar um ciclo de mapeamento de práticas educacionais inspiradoras desta viagem. Neste post, contarei sobre algumas delas.

Escola Sesc

sescNo Rio, conheci a Escola Sesc. Iniciativa do Serviço Social do Comércio é uma escola-residência genuinamente brasileira. No processo seletivo, busca-se contemplar alunos de todo o país, também levando em conta gênero e renda. Mais da metade dos estudantes têm renda familiar entre um e três salários mínimos. Nas salas de aula, que têm apenas quinze alunos e isto permite dedicar mais atenção para cada estudante. A pesquisa torna-se um princípio pedagógico muito importante. “É preciso trabalhar com a investigação. Este trabalho tem que ser uma maneira do aluno se construir como ser humano no mundo”, explicou a coordenadora pedagógica Inês Paz. 

Na escola, o aprendizado acontece dentro e fora da sala de aula, uma vez que tanto alunos quanto professores moram no campus. Além do currículo tradicional, as aulas extras e a vivência permanente, convergem paras formar cidadãos com habilidades e competências demandadas pela sociedade e pelo mercado de trabalho, como responsabilidade, autonomia, trabalho em equipe, diálogo e visão ampla de mundo. Estes valores são encontrados em vários outros projetos de sucesso pelo Brasil. Conheci a escola por uma dica do aluno Daniel Lopes, que está no terceiro ano do Ensino Médio. Filho de cozinheira e comerciante, saiu de Londrina para estudar na Escola Sesc. “Era uma oportunidade única. Isso mudou minha vida”, contou. Hoje, fala com a consciência de um adulto e é envolvido em vários projetos para melhorar sua Educação e o aprendizado de outros jovens do país.

A praça do Complexo Alemão

pracaNa Praça do Conhecimento, um espaço criado pela Prefeitura do Rio de Janeiro para fomentar conhecimento e cultura no Complexo do Alemão, pude conhecer um exemplo de investimento público em espaços em que o Governo pouco atua. 
“Costumo dizer que a Praça é uma casa de diálogo”, conta Luiz Lima. Ele coordena os cursos profissionalizantes e oficinas para a comunidade. Além de formar profissionais para o mercado de trabalho, há um movimento muito interessante de recuperação da história da comunidade. 

Felipe Fonseca, um dos educadores da Praça, contou que conheceu mais a história do Complexo do Alemão dando aulas. Sua família está na comunidade há três gerações e ele descobriu apenas este ano que existe um hino do Alemão. Além disso, Felipe conta que em razão de as aulas serem metade conteúdo e metade escutar histórias, ele aprendeu a se relacionar melhor com as pessoas ao seu redor. Na viagem, vi que é preciso integrar a realidade dos estudantes no processo e estabelecer canais de diálogo entre todos os atores envolvidos.

Adultos também podem aprender

No Rio, também conheci Cloves, um taxista nascido em uma cidade que beira a estrada no interior do Maranhão. Ele estudou apenas até a segunda série do Ensino Fundamental porque precisava sustentar a família. 

Hoje, está cursando o Ensino de Jovens e Adultos e sempre tira 10 em Matemática. Quer ser engenheiro e já está se inscrevendo em um curso de informática. Conheci muitos “Cloves” pelo caminho: filhos de pais de origem simples e muitas vezes analfabetos, a vida difícil nos interiores do país os obrigou a interromper os estudos. Atualmente, muitos conseguem retomar os estudos e vários conseguem entrar na universidade. Também encontrei vários jovens que foram os primeiros da família (ou da comunidade, como a Dayse a entrar na universidade. Atualmente, eles representam 33% dos universitários brasileiros.

Educação fora da escola

Além disso, vivenciei diversas vezes as trocas informais de conhecimento, um tema que está cada vez mais em voga na Educação. O educador Tião Rocha, criador do CPCD, costuma dizer que escola é diferente de Educação. A escola é um meio; Educação é o fim. Todo lugar é lugar de se aprender, inclusive na escola. 

Durante a viagem, pude constatar isso nos projetos, histórias de pessoas e conversas de que participei. No Rio de Janeiro, também houve muita troca de conhecimentos e construções coletivas em espaços comuns. 

Na viagem, conheci um projeto que busca promover espaços de trocas de conhecimentos na cozinha, enquanto é realizado um workshop sobre comida mineira. O escritor moçambicano Mia Couto disse em um bate-papo em São Paulo que começou a ser escritor na cozinha, observando sua mãe e as amigas contarem histórias (“Elas tinham a capacidade de converter histórias em palavras”, contou o escritor”. Estes são exemplos de que espaços informais de aprendizado também existem e precisam ser aproveitados no processo educativo.

Próximos passos

Agora, é hora de analisar tudo que vi e continuar compartilhando este conhecimento, formando redes e buscando construir iniciativas para potencializar as práticas educativas que o Brasil tem de melhor. A viagem termina, mas o projeto continua. Estou começando a escrever um livro sobre algumas das iniciativas e histórias mais interessantes que conheci nesta viagem, realizarei palestras em algumas cidades do Brasil (aproveitando para também conhecer as realidades e práticas educacionais inspiradoras) e desenvolverei uma série de projetos envolvendo Educação, Comunicação e Tecnologia.

Continuarei compartilhando as novidades do projeto e trocando ideias com interessados no assunto no www.facebook.com/caindonobrasil e escrevendo no blog www.caindonobrasil.com.br!

Neurocientista Sidarta Ribeiro destaca a importância da alimentação e do sono para o aprendizado, em conversa com blogueiros de educação

SNa última quinta-feira, fiz uma viagem inesperada de volta para São Paulo para participar de um debate no Prêmio Trip Transformadores 2013. Um grupo de blogueiros que trabalham com educação – entre eles, o Escolas do Brasil – teve a oportunidade de entrevistar o neurocientista Sidarta Ribeiro, um dos homenageados do prêmio.

Sidarta é um dos brasileiros que estão transformando o país para melhor. Pós-doutor pela Universidade de Duke, ele estuda há anos as questões do sono e da memória envolvidas com a educação. No bate-papo, falou sobre a importância do sono e da alimentação no processo de ensino-aprendizagem e também defendeu a valorização da profissão dos professores.

Alimentação e sono
No começo do ano, fiz a experiência de me alimentar apenas de alimentos frios e com a mínima intervenção humana possível. Em 30 horas de teste, já não conseguia raciocinar direito para escrever um artigo que precisava ser entregue em poucos dias. 

Sidarta apontou a alimentação como um dos pontos importantes para um aprendizado eficaz. "Não adianta você ter um bom método pedagógico na escola se a criança chega no colégio sem ter se alimentado. A gente sabe que isso é fundamental. Existem vários estudos mostrando, por exemplo, que a glicose aumenta o aprendizado", explica.

Em várias escolas de período integral que visitei pelo Brasil, a questão da alimentação era sempre tratada com muita importância pela gestão. "Aqui as crianças fazem cinco boas refeições por dia", me contou orgulhosa uma diretora de escola pública em Brasília enquanto me dava uma cópia do cardápio da semana. Parece um detalhe, mas os estudos de Sidarta e de outros neurocientistas de todo planeta mostram a importância de uma boa alimentação na educação.

A quantidade de horas dormidas também é fundamental, de acordo com o neurocientista. Diversos estudos apontam que o sono facilita a concentração da memória. Sidarta e seu time buscam maneiras de aproveitar isso. "As crianças passam o dia todo na escola e só vão dormir a noite. O sono deveria ocorrer logo após o aprendizado, já que é uma possibilidade de consolidação da memória para que ela não sofra interferência", defende. Ele também explica que, além de consolidar, o sono trabalha com a reestruturação da memória: "a criatividade, o insight, a nova ideia – que é um produto das ideias velhas - , tudo isso é facilitado pelo sono".

Motivação dos professores
Diversos estudos na neurociência apontam a existência de uma curva de motivação. O salário é um elemento motivacional. Se uma pessoa ganha um, dois ou três centavos, não faz diferença porque está no ponto baixo e estável do gráfico. Se ganha um, dois ou três bilhões de reais também não há diferença porque é dinheiro demais. "O lugar interessante para a curva da motivação é no meio do caminho. É nessa subida que há uma relação mais ou menos linear: quando você aumenta a recompensa, aumenta a motivação", explica. "Hoje as pessoas vão para sala de aula ou por amor à profissão ou porque não conseguiram outro trabalho. Isso tem que mudar. Agora, que a gente tem uma dedicação dos royalties do petróleo pra educação, a coisa mais importante é equiparar os salários do magistério com os da universidade.", argumenta Sidarta.

Neurociência e Educação
Sidarta foi mais um dos cientistas que mostrou que a área da Neurociência tem muitas figurinhas para trocar com a Educação. Ele mesmo atua na ária educacional, trabalhando em seu  laboratório, que estuda as relações em sono, sonho, memória e a capacidade dos neurônios de realizar novas funções. Confira mais sobre o trabalho que Sidarta e sua equipe desenvolvem no Instituto do Cérebro da UFRN

Fundação muda realidade de município no interior do Ceará

Já imaginou uma cidade ter sua realidade completamente alterada com a criação de uma ONG? Foi isso que aconteceu com Nova Olinda, no interior do Ceará. Até o início da década de 1990, as crianças da cidade brincavam de "31 salva todos", uma espécie de esconde-esconde, nas ruas da cidade e tinham medo da Casa Grande mal assombrada da rua Jeremias Pereira, quase vizinha da Igreja Matriz.

Foi em 1992 que Alemberg Quindins, apenas com ensino fundamental completo, começou a mudar esta realidade e toda a cidade com a criação da Fundação Casa Grande. Hoje, as crianças continuam com a mesma brincadeira, mas dentro dos muros da antiga casa mal assombrada, a qual se tornou um dos principais pontos da cidade.

A Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Cariri educa e capacita crianças e jovens para atuação na área de comunicação e desenvolve habilidades e competências para a vida e para o mercado de trabalho. A partir de vivências e capacitações profissionais, trabalho em equipe, responsabilidades, autonomia, capacidades de diálogo e de leitura crítica de mundo são trabalhadas.

Alėm disso, a ONG inseriu a cidade de Nova Olinda na rota do turismo social e cultural brasileiro. Nos últimos quatro, mais de 100 mil atendimentos à turistas e moradores de Nova Olinda foram atendidos pela Fundação em todos os espaços de convivência (teatro, museu, internet, DVDteca, parquinho, biblioteca e atividades esportivas). Muitas se hospedam nas casas de familiares das crianças e jovens que frequentam a casa. Assim, há geração de renda familiar para a comunidade e também conhecem um pouco da realidade do Cariri. "Hoje a cidade é um destino indutor do turismo do Brasil, justamente por conta da Fundação", conta Helio Filho, o Helinho – um dos primeiros meninos da Casa Grande.

Nova Olinda tem 11 escolas públicas, a maioria em zona urbana. O Ideb cresceu de 2.7 pontos em 2005 para 5.4 em 2011. As crianças “uniformizadas”, que fazem parte da Fundação, devem frequentar a escola de manhã, mas a ONG está de portas abertas para toda a cidade. Na escola, elas aprendem o conteúdo necessário para ter um entendimento de mundo. De tarde, participam de vivências que trabalham com habilidades e competências como autonomia, protagonismo, trabalho em grupo e diálogo. Yasmin – uma menina de 8 anos muito simpática que frequenta a Fundação desde que se entende por gente – passa mais tempo na Fundação do que em casa ou na escola. 

Como tudo começou

Não tive oportunidade de conversar com Alemberg, mas tive um longo bate-papo com Helinho. Ele me contou a história do criador da Fundação e sobre o trabalho da Casa Grande. Alemberg viveu toda infância em Nova Olinda. Aos 7 anos de idade, recebeu de Dona Artemísia, uma cabocla da cidade, uma estatueta rupestre. Ele sempre ouvia a conterrânea contar as lendas da região do Cariri. "De tanto ouvir as lendas, ele foi se apaixonando pelo assunto e pela região", conta Helinho, que ainda se considera um "menino da Casa Grande", mesmo com seus 25 anos.

Anos mais tarde, Alemberg resolveu entrar na Marinha para conhecer o mundo. Como as coisas não saíram como planejado e ele passou mais tempo dentro do navio do que em solo firme, resolveu assumir uma grande paixão como profissão: se tornou músico popular. A nova ocupação permitiu que o jovem conhecesse todo o Brasil. Na mochila, carregava um gravador para entrevistar as lendas de cada lugar que passava e era presenteado com muitas peças, como a que Dona Artemísia lhe deu, por pessoas que sabiam de seu interesse.

Este material se tornou um museu feito em sua própria casa no Crato, cidade próxima de Nova Olinda. A coleção começou a receber muitas visitas de estudantes da região. Então, Alemberg descobriu que a velha casa "mal assombrada", seria demolida por causa da força do tempo. Como o imóvel era de familiares, o músico e colecionador pediu a casa para a criação do museu. Ele restaurou o imóvel, capacitou alguns moradores para monitoria do museu e passou a frequentar o espaço nos finais de semana.

Envolvimento e empoderamento infantil e juvenil

Em uma determinada visita, Alemberg chegou em Nova Olinda e encontrou a recepção do museu tomada por turistas. Uma criança de cuecas chamada Tontonio percebeu que os monitores não estavam dando conta do volume de turistas naquele dia e começou a recepcionar os convidados. "Disseram que ele explicava direitinho tudo do museu. O Alemberg viu potencial na ideia de envolver crianças e jovens no projeto e começou a formá-los como monitores e a fazer campeonatos esportivos na casa", conta Helinho.

Com o museu e os campeonatos, Alemberg iniciou a Fundação Casa Grande, um projeto que retirou o rótulo de "casa mal assombrada" do imóvel e mudou a realidade de toda a cidade. Com jogos, pipoca e uma escolinha para ensinar lendas e arqueologia para crianças, a casa foi se tornando habitada por toda a cidade. Hoje, centenas de moradores e turistas passam pela casa todo mês.

Junto com os "meninos da Casa Grande", a Fundação cresceu

Em 1998, a fundação cresceu com a compra da casa vizinha, que tinha sido a primeira escola da cidade na década de 1960 e se encontrava abandonada, e implementou uma DVDteca no espaço. Em 2000, houve mais uma expansão para a criação dos estúdios de rádio e TV e o início de uma escola de comunicação. Em 2002, a fundação cresceu ainda mais com a construção de um teatro e hoje ocupa um quarteirão inteiro da cidade.

Foi neste teatro que conversei com Helio Filho. Para chegar lá, caminhamos alguns metros por corredores com várias fotografias de famosos em visitas na Fundação. O humorista Renato Aragão, os apresentadores Eliana e Luciano Hulk e os músicos Lobão e Gilberto Gil eram alguns dos célebres fotografados. No teatro, dividimos o espaço com a professora Meg, uma norte-americana de 59 anos que veio ao Cariri ensinar inglês para as crianças da fundação como voluntária. A aula era feita mais por brincadeiras do que um ensino tradicional. "A fundação quer agregar as pessoas, valorizar o convívio", explica Helinho.

Uniforme que representa responsabilidade

Helinho chegou na Casa Grande aos 10 anos, depois que o pai, policial militar, foi transferido para Nova Olinda. "Um amigo meu sabia que eu gostava de música e me chamou para participar de um programa de rádio que tocava reggae. Logo no primeiro dia, ele foi me ensinando tudo. Comecei a ajudar todos os dias nesse programa e, consequentemente, participar das outras atividades. Em dois meses, ganhei o uniforme", conta com orgulho. Já são 16 anos frequentando a casa diariamente.

Atualmente, apenas 30 crianças e jovens possuem esse uniforme. Ele representa uma relação de compromisso e responsabilidade com a Casa Grande. Todos os dias, eles chegam na Fundação às 12h30 e fazem a limpeza da casa. Depois, participam de várias vivências oferecidas. As portas estão sempre abertas para todos, mas quem não tem uniforme precisa estar acompanhado de um menino ou menina da Casa Grande.

No inicio da aula de inglês no teatro, estavam Yasmin e um outro garoto que Helinho nunca tinha visto por lá. Os dois estavam aproveitando muito a aula com a professora Meg. Vi a importância das crianças uniformizadas quando Yasmin gritou brava para o garoto: "ow, você não pode subir ai não!", assim que ele começou a subir no andar superior do teatro.

Durante o ano, crianças e jovens circulam por todas as áreas de atuação da fundação. "O foco da Casa Grande é formar essas pessoas em gestão cultural. Assim, eles podem usar várias ferramentas que trabalhamos aqui da melhor maneira possível", explica Helinho, que já foi diretor da rádio, da DVDteca, de esportes e hoje atua no estúdio de audiovisual. Ele também está inserido no mercado de trabalho a partir dos contatos firmados na Fundação, conhecidos como Amigos da Fundação Casa Grande. Uma semana depois da nossa conversa, o jovem viajou para São Paulo para fazer um trabalho de edição para uma jornalista amiga da Fundação.

Vamos colaborar?

Estou viajando há dois meses e meio. Neste período, conheci as realidades de 35 cidades pelo caindonobrasil e quase 20 práticas e histórias escolares que merecem ser compartilhadas. Isto só foi possível com a colaboração de várias pessoas de todo o país.

Na última semana, estive em Salvador. O plano era de ficar três ou quatro dias na capital baiana para conhecer a cidade e uma escola particular com uma prática pedagógica bastante interessante. No fim, fiquei mais de uma semana e conheci quatro projetos que tem como objetivo comum melhorar a educação e a cidade de Salvador.

Isto só foi possivel com a colaboração de pelo menos uma dezena de pessoas que conheci durante a viagem. Elas me apresentaram projetos relevantes em Salvador e pessoas que poderiam conversar comigo sobre seus trabalhos.

Participe também da construção deste projeto de conhecer e compartilhar boas práticas e histórias em educação. Envie dicas, contatos e ajude a ampliar esta rede de pessoas que fazem a diferença na educação brasileira. Confira as cidades que ainda conhecerei, que estão marcadas em azul, no mapa da viagem!

“Querer não tem idade, né?!”

Aos 54 anos, a alagoana Dona Dora pensa em prestar o Enem para biologia. Uma enorme conquista, para quem passou a vida indo e vindo da escola

Conheci Doralice Santos durante o café da manhã, enquanto ela preparava ótimas tapiocas. Ela trabalha como camareira e cozinheira de um hotel em Maceió. Algumas semanas atrás escrevi um post sobre o analfabetismo de jovens e adultos no Rio Grande do Norte e sobre um projeto do governo do Estado para alterar esta realidade. Dona Dora é de Alagoas, mas é um exemplo de como a Educação de Jovens e Adultos pode melhorar a vida destas pessoas.

Filha de marinheiro e dona de casa, Dona Dora me chamou atenção por sua simpatia e história de vida. Ela é múltipla: já trabalhou como vendedora, cozinheira de empresas e de um presídio, cuidadora de idosos e até como pedreira. Aos 10 anos, ensinou a mãe a escrever o próprio nome. Criou sozinha os três filhos e, prestes a completar 54 anos, concluirá o Ensino Médio.

Aos 14 anos, precisou deixar a escola antes de concluir o Ensino Fundamental para ajudar a complementar a renda familiar como vendedora de uma loja de tecidos. "Eram nove irmãos, então era muito difícil para meu pai dar estudo para todo mundo", conta. Ela não quis tirar foto. Tem um pouco mais de 1,60m; uma pinta no lado esquerdo do rosto, perto do olho; já tem algumas rugas, mas o sorriso simpático esconde um pouco as marcas da idade. Veste uniforme azul e uma touca branca cheia de grampos.

Apesar da simpatia, foi bastante rígida na educação dos filhos. "Eu seguia eles até o portão da escola para saber se realmente estavam indo para a aula", lembra. Os três completaram os estudos, estão trabalhando e por coincidência casaram-se com as primeiras namoradas.

Em 2008, aos 49 anos e ainda com filhos morando em casa, Dona Dora decidiu voltar aos estudos para melhorar sua qualidade de vida. "Meus filhos me apoiaram bastante. A mãe deles estava terminando a escola enquanto muitos jovens não fazem isso, né?", conta. Ela parou os estudos no atual oitavo ano, mas conseguiu retomá-los já no Ensino Médio.

Várias vezes, ela pensou em desistir. "Não parei de estudar porque o diretor e os professores da escola sempre incentivam a gente a concluir o curso", diz a estudante, que também vê a volta para casa com um grupo de colegas como um incentivo para continuar os estudos. Dona Dora trabalha como camareira e ajuda na cozinha do hotel algumas vezes por semana durante as manhãs. De tarde, cuida de casa. As aulas começam às 19h e terminam às 22h. Às 6h, ela já está começando o trabalho no hotel, que fica a três quadras de sua casa.

Aos 10 anos, ensinou a mãe a escrever o próprio nome. "Ela nunca mais precisou usar o polegar para assinar alguma coisa", orgulha-se. A mãe não continuou os estudos, mas Dona Dora seguiu em frente. Depois de 44 anos, ela está pensando em prestar a prova do Enem para fazer faculdade de Biologia, matéria que sempre tira 10 na escola. "Querer não tem idade, né?!".

No mês que vem, Dona Dora começa uma nova etapa de vida. Com o dinheiro do aviso prévio, ela se tornará autônoma e começara a vender trufas, sandálias e bordados que produz. 

Ela não tem consciência, mas acredito que a conclusão dos estudos ajudará muito nesta nova etapa, principalmente ao cuidar da parte financeira e na comunicação com clientes. Uma coisa é certa: a volta à sala de aula fez Dona Dora querer se aprimorar e buscar mais conhecimento. No São João, a maior festa do Nordeste, ela já está pensando em fazer um curso de camareira. No fim do ano, ligarei para ela para saber como está a nova etapa e como foram os resultados do Enem.

Autores da aprendizagem

Em março, tive a oportunidade de conhecer a EEEP Alan Pinho Tabosa, uma escola no interior do Ceará que usa a Aprendizagem Cooperativa como modelo de ensino-aprendizagem. Esta experiência foi inspirada no projeto criado pelo professor de química Manoel Andrade para ajudar jovens de sua cidade natal a entrarem na universidade a partir da formação de grupos de estudos. 

Em 18 anos de trabalho, formou-se uma forte rede de colaboradores, mais de 500 jovens entraram no ensino superior e a metodologia começa a ser institucionalizada em programas e ações do governo estadual.

No Escolas do Brasil, vocês poderão conhecer melhor as histórias de alguns personagens envolvidos nessa história. Escrevi uma matéria na edição de maio da revista Educação contando mais sobre o projeto iniciado pelo professor Manoel e sobre a experiência na EEEP Alan Pinho Tabosa. Leia a matéria aqui.

MANOEL ANDRADE
O filho de agricultor que ajuda jovens a entrar na universidade

“Olha, uma coisa que eu acho importante você dizer aí na reportagem é que esse é um movimento grande, que envolve muita gente. Eu só fui um dos primeiros, mas são muitos protagonistas trabalhando. Ele só deu certo porque as pessoas venceram e voltaram para ajudar os outros”, alerta Manoel Andrade, uma das pessoas mais importantes para o surgimento do Programa de Educação em Células Cooperativas (Prece), projeto com método de ensino-aprendizagem que ajuda jovens a aprenderem com autonomia em estudos em grupo.

Ele está certo, mas merece o crédito. Passei o dia inteiro conhecendo os resultados do que um dia se chamou Programa Coração de Estudante (“por causa da música do Milton Nascimento”, conta Manoel) e conversei com dezenas de pessoas que formam uma rede de aprendizagem cooperativa que começou em 1994, com a iniciativa do professor Manoel. 

Ele é de uma família de agricultores de Pentecoste, cidade a 85 km de Fortaleza. Seus bisavós chegaram à região em 1913 e se estabeleceram em Cipó, uma pequena comunidade rural próxima à cidade. Em 1940, seus avós resolveram migrar para fugir da seca e, depois de passarem por muitas cidades, fixaram-se na capital cearense. O pai de Manoel voltou para a terra natal para trabalhar com agricultura, casou-se e teve dez filhos.

A vida de Manoel já poderia estar traçada: bisneto, neto e filho de agricultores, aquele recém-nascido do ano de 1959 poderia muito bem seguir os passos da família e continuar na comunidade rural formada por dez casas. No entanto, o destino foi outro: “Quando eu tinha 9 anos meus avós, que moravam em Fortaleza, fizeram de tudo para eu ir estudar na capital. Quando me mudei, morava no mesmo bairro que moro hoje, numa casa a um quilômetro da universidade federal. Mas nessa época eu nem sabia direito o que era universidade, era uma coisa muito distante para minha realidade”, relembra.

Aos 16 anos, foi convidado por um conhecido a participar de um grupo de estudos. Os jovens se reuniam várias vezes na semana e compartilhavam seus conhecimentos. Ele ajudava no conteúdo de Biologia e o que mais aprendeu não foi o assunto das matérias. “Foi nesse grupo que eu tive contato com o que era universidade,” relata. Nos dois anos seguintes, vários grupos diferentes foram formados e encerrados. Manoel conseguiu entrar no curso de Química na Universidade Federal do Ceará (UFC) e continuou com o estudo em grupo, mas com menor intensidade, durante a graduação.

Quando concluiu os estudos universitários, o professor decidiu atuar mais fortemente na comunidade de onde veio. “Eu passava todas as minhas férias no Cipó, mas quando terminei a universidade tinha o sentimento de responsabilidade de compartilhar os benefícios que tive”, explica. Todo fim de semana, pegava sua caminhonete e organizava campeonatos de futebol na comunidade rural.

“Mas aí percebi que podia criar um grupo de estudos, como os que participei, lá no Cipó”. Disse e fez: chamou vários jovens da comunidade para participarem do grupo. Sete deles, que tinham entre 16 e 20 anos e não haviam concluído os estudos, aceitaram o desafio e começaram os encontros numa casa desativada de fabricar farinha. O professor conseguiu cadernos e livros para iniciar o projeto e os estudantes se reuniam sozinhos durante a semana para aprenderam cooperativamente. Nos finais de semana, Manoel voltava para o Cipó para auxiliar nos estudos e tornar o ensino superior uma realidade mais próxima. "Lembro da caminhonete do meu pai cheia de estudantes que iam conhecer a Universidade Federal do Ceará (UFC) junto com meu pai, um dia o carro até quebrou e ficamos horas parados na estrada", conta Alzira, filha mais velha de Manoel.

RAIMUNDO NONATO
O aluno que virou professor

Vários jovens que se beneficiaram do Programa de Educação em Células Cooperativas criado por Manoel Andrade voltaram para compartilharem os benefícios que conseguiram. Um deles é Raimundo Nonato Furtado, que conheci em Jericoacoara (norte do Ceará) e quem me apresentou todo o trabalho do Prece.

8618569825_caf55e468d_cNonato nasceu em Pentecoste. Filho único de pai pescador e mãe técnica de enfermagem, passava a maior parte do tempo na casa de sua avó enquanto a mãe fazia plantões no hospital da cidade. Ele foi o primeiro de toda a família a entrar na universidade e teve a ajuda dos grupos de estudos para isto. Em 2003, começou a participar do Prece e no mesmo ano ingressou no curso de Letras da UFC.

Como não tinha dinheiro para alugar uma casa em Fortaleza ficou o primeiro ano do curso dividindo o espaço da residência universitária com outro colega que conheceu no projeto. Hoje, é mestre em Linguística e professor da Escola Técnica Federal de Crateús, a 350 km de Fortaleza. Lá, criou o primeiro curso de Letras da rede de ensino técnico do Estado, junto com outros colegas.

Mesmo trabalhando em outra cidade, Nonato mantém uma residência no bairro Benfica, o mesmo da UFC. Dois dias por semana, volta para Fortaleza e dorme em sua casa, que fica em cima de uma escola. “E você nunca pensou em dar aulas aí, Nonato?”, perguntei. “Não, essa escola é de educação infantil. Eu gosto mesmo é do ensino superior”, respondeu o rapaz que gosta dos debates da universidade.

OS ALUNOS
Proximidade com professores é unânime

Conversei com três alunos do segundo ano do ensino médio da EEEP Alan Pinho Tabosa, uma escola do governo estadual que fica em Pentecoste e tem a metodologia inspirada no trabalho do Prece. Todos, por acaso, são filhos de professores que atuam em outras instituições. Gabriela Dutra, Letícia Nunes e Victor Cesar Marques sempre estudaram em escolas tradicionais e entraram na EEEP Alan Pinho Tabosa na primeira turma aberta. Gabriela quer ser médica. Letícia, engenheira química. As duas estão matriculadas no segmento acadêmico da escola. Já Victor, que quer trabalhar com informática, está cursando o ensino técnico na área.

Logo no início da conversa, percebo que os três jovens são bastante maduros para a idade e conversam muito bem. Isto também pode ser considerado resultado da Aprendizagem Cooperativa. Como os estudantes são divididos por células de estudo, há muita troca de conhecimento entre eles. “Num assunto em que podia aprender com o professor, tenho outros pontos de vista”, conta Letícia.

Além disso, os três ressaltaram a importância do crescimento sob o ponto de vista social. “Você precisa lidar com outras pessoas todos os dias. Com isso, a gente consegue ver além. A gente debate, lida com opiniões diferentes. Tem dias que você chega na sala e não quer falar com ninguém. Em uma escola normal você pode ficar no seu canto. Aqui você precisa interagir com os outros”, completa Letícia, enquanto os outros dois estudantes concordam com ela.

Para o ensino em grupos funcionar, os alunos me explicam que, além de um acordo entre a classe com regras a serem seguidas, existe uma divisão de funções dentro do grupo e uma avaliação no final de cada aula ou de cada dia de estudo. Todo mês, alguns alunos são eleitos coordenadores de grupo pela classe. Este coordenador escolhe os integrantes do grupo, que podem assumir funções como Controlador do Tempo e Guardião do Silêncio.

Já a avaliação é uma conversa entre professor e alunos no fim da atividade, na qual é debatido a atuação de cada ator envolvido e a qualidade da aula. “Muitas vezes, a gente acha que a aula foi ruim, porque todo mundo falou muito, fez muito barulho. Daí o professor defende que a aula, para ele, foi boa porque a gente participou bastante. Então sempre debatemos sobre os resultados”, explica Letícia.

Na conversa com os três alunos e nas minhas observações nos corredores, foi unânime que o relacionamento com os professores e funcionários da escola é um dos pontos fortes da instituição. “A gente tem uma relação de confiança muito forte com eles. Muitas vezes conversamos até sobre problemas pessoais com os professores”, diz Letícia. Gabriela completa: “Muitos passam o intervalo com a gente, não ficam fechados dentro da Sala dos Professores”.

Distantes de Paulo Freire

No município em que foi iniciado o método do pedagogo pernambucano, 25% dos jovens e adultos ainda são analfabetos
 
Cinqüenta anos depois de ter sediado a esperança de solução do analfabetismo de jovens e adultos no Brasil, a cidade de Angicos (RN) ainda tem mais de duas mil pessoas que não sabem ler nem escrever. O município em que Paulo Freire começou o seu revolucionário método de alfabetização em 1963 ainda convive com 25% dos jovens e adultos analfabetos.

A realidade não se restringe apenas ao pequeno município de cerca de 12 mil habitantes. No Rio Grande do Norte, 15,8% da população com 15 anos ou mais é analfabeta. Número mais baixo que o índice nordestino (16,9%), mas o dobro do brasileiro (8,6%), segundo dados de 2012 do IBGE. São quase 13 milhões de jovens e adultos analfabetos no país, 500 mil deles no Rio Grande do Norte. "Existem municípios com mais de 30% de analfabetos", lembra o professor Joaquim Oliveira, secretário adjunto da pasta. Joaquim trabalha em média 12 horas por dia. Ele passou 30 anos dirigindo escolas de uma rede privada pelo Brasil e, quando voltou para Natal, quis trabalhar "com aqueles que não têm opção além da escola pública", relata.

Conversando com funcionários de vários escalões do Governo do Estado, foi possível perceber que existem diversos projetos e desafios na área de alfabetização de jovens e adultos no Rio Grande do Norte. Há programas com horários flexíveis para agricultores, outros voltados para estudantes mais velhos que não querem frequentar o ambiente escolar por se sentirem constrangidos com a presença dos mais novos, além da atenção especial para cadeias, indústrias e até centros de hemodiálise.
 
Ano Paulo Freire
Esse é o Ano Paulo Freire de Educação no Rio Grande do Norte, em que o governo estadual está aproveitando a importância política e histórica do aniversá
rio de 50 anos da experiência de Freire em Angicos para ampliar as ações na área e para repensar o currículo da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O Ano é formado por diversas ações de incentivo e promoção da EJA no Estado, desde eventos para celebrar a data, até a formação de educadores e reformulação dos currículos.

"Nossa perspectiva é justamente reduzir a incidência do analfabetismo nos municípios do Rio Grande do Norte. Estamos reforçando o Programa Brasil Alfabetizado e as ações do Pacto Paulo Freire serão feitas em conjunto com o Brasil Alfabetizado", explica Joaquim Oliveira (foto).

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O eixo norteador do projeto é o de que a alfabetização não se limita a ler, escrever e fazer contas matemáticas, ou seja, retoma o pensamento freiriano. As universidades auxiliarão o governo principalmente nas questões de formação de educadores e de reformulação do currículo. "Precisamos de educadores qualificados e preparados para trabalhar com esse público específico. Principalmente por esta especificidade, a secretária tem insistido na reformulação dos currículos de EJA. “Por que a gente não começa a trabalhar com as áreas de conhecimento? Por que não trabalhamos buscando descobrir naquele contexto, naquela região, quais são as habilidades e competências necessárias para o indivíduo progredir, crescer e se desenvolver, independente da idade?", defende o secretário adjunto.


As secretarias municipais de educação também serão parceiras. "Vamos fazer encontros com os secretários municipais de educação. Assim, não vai existir Educação de Jovens e Adultos do município e do Estado; vai ser tudo uma coisa só. O olhar precisa ser o mesmo e não pode haver conflito", defende Janeide Cruz, que faz parte do comitê criador do Ano no Estado. O Estado também premiará gestores e professores que tiverem os melhores resultados para incentivar os educadores envolvidos.

A Secretaria Estadual de Educação do Rio Grande do Norte ainda não definiu todos os pontos do plano de ação e nem as metas do programa. Espera-se que os índices de analfabetismo apresentem melhores resultados e que a educação pública tenha formação com viés mais democrático e cidadão entre 6 e 8 anos. Tentamos contato com dois partidos de oposição via e-mail, mas não tivemos sucesso. Espero que, daqui alguns anos, em uma próxima viagem pelo Brasil, encontre pessoas beneficiadas pelas ações do Ano Paulo Freire de Educação no RN e que elas tenham tanta vontade de melhorar a educação e a realidade de conterrâneos quanto Janeide.

 
Filha de agricultor alfabetizadora
Janeide Cruz é a décima filha de um agricultor e uma dona de casa da zona rural de Caraúbas, cidade a 305 km de Natal (RN). O sítio da família só recebeu energia elétrica na década de 1970. Mesmo com algumas limitações, Janeide e seus 9 irmãos sempre tiveram a educação como prioridade. Hoje, ela é uma das responsáveis pelo Ensino de Jovens e Adultos do Estado do Rio Grande do Norte. Janeide coordena as ações do Estado no programa federal Brasil Alfabetizado e faz parte do comitê criador do Ano Paulo Freire de Educação no Rio Grande do Norte, o principal projeto de Educação de Jovens e Adultos do Rio Grande do Norte lançado esse ano.

Janeide

Ela nasceu em 1963, o mesmo ano de início do projeto que ficou conhecido como "As 40 horas de Angicos" e que tornou a metodologia de Paulo Freire nacional e internacionalmente conhecida. Cinco anos depois desse importante projeto e a 370 km da cidade de Angicos (RN), Janeide era alfabetizada precocemente no sítio por duas irmãs que eram professoras e tinha as primeiras aulas de matemática com o pai. "Meu pai foi um agricultor, mas sabia ler e era muito respeitado na cidade por isso. Ele e minha mãe sempre deram muito valor à educação e ao conhecimento. Toda noite a família se reunia em volta do rádio para ouvir A Hora do Brasil", conta a filha de Seu João da Cruz, que nunca frequentou a escola e foi alfabetizado por uma tia em casa. Todo final de dia, ele colocava Janeide em cima da cerca para contar os carneiros do sitio e dizer ao pai se estava faltando algum animal.

"Só descobri que meu pai era um excelente professor de matemática quando estava estudando Metodologia da Matemática no Magistério", diz. Foi também no magistério que se descobriu uma apaixonada por educação. Sempre uma das melhores da turma, tornou-se professora substituta na mesma escola que estudou. Depois, mudou-se para Apodi, a 340km de Natal, como professora concursada e foi promovida à diretora. Como as três filhas foram mudando aos poucos para fazer universidade em Natal, ela conseguiu transferência no emprego. Pouco tempo depois, foi convidada para coordenar as ações do Estado no Programa Brasil Alfabetizado.
 

Antiga vila de pescadores cresce 2 pontos no Ideb com o esforço de um “professor por acaso”

"Achava que trabalharia um ou dois anos na área e partiria para outra coisa. Só que descobri que educação é um negócio muito difícil de largar", disse Francisco Vanderlin de Araujo, hoje diretor de escola.

Estávamos em Jericoacoara, no norte do Ceará, muito conhecida como ponto turístico. Considerada uma das dez praias do mundo pelo jornal The Washigton Post em 1994, deixou de ser a vila de pescadores que era até 1985, quando se tornou ponto obrigatório para amantes de sol e mar e de windsurf.

A vila com ruas de areia tem 2500 moradores e uma única escola com classes de 1º ao 9º ano durante o dia e EJA para conclusão dos dois anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. Logo que soube que existia uma escola com uma boa história em Jericoacoara, fui bater na porta da instituição sem aviso prévio. No portão, encontrei Manoel, um dos operários que estão construindo a quadra coberta na escola, almoçando uma quentinha. Ele logo chamou a secretária, que me levou até a sala de informática onde Vanderlin estava conversando com alguns alunos.

Homem simples e simpático, Vanderlin vestia camiseta verde com o logo da Semana de Arte e Cultura de 2012, um dos projetos que o diretor mais se orgulha de produzir. Ele não pensou duas vezes em me levar para sua sala para conversarmos com calma. O espaço é grande e também serve como local para armazenamento de livros didáticos. Em cima da mesa, doces para kits de Páscoa para os alunos e uma pilha de papel. Vanderlin sentou na frente de uma série de certificados colados na parede e começou a contar sua história na Escola de Jericoacoara com bastante calma. 

Em 2009, Vanderlin assumiu a direção da escola, então com baixas notas nas avaliações governamentais e alguns casos de violência e evasão escolar. Em cinco anos, o diretor e sua equipe atingiram metas das avaliações governamentais, abriram um canal de diálogo entre alunos, pais e educadores para reduzir a violência e a evasão e transformaram a escola num lugar cobiçado por muitos professores da rede. Além disso, a gestão conseguiu grandes melhorias na infraestrutura do colégio, principalmente com apoio do Governo Federal. Não pude conversar com as crianças e com os jovens porque estavam em aulas. No entanto, espiei algumas salas e vi salas cheias e alunos estudando com sorrisos nos rostos. 

Educador por acaso

Vanderlin cresceu e estudou em Bela Cruz, uma cidade a 50 km de Jericoacoara. Fez ensino médio técnico em Pedagogia mais por falta de opção do que por vocação. Hoje, o diretor considera a alfabetização uma das maiores realizações que um educador pode ter.

Depois de uma graduação e duas especializações nas áreas de pedagogia e gestão escolar e muitos cargos na secretaria municipal, Vanderlin foi escalado para o cargo de gestor da escola. Ele e mais 10 professores moram em Jijoca de Jericoacoara, o município responsável por Jericoacoara e outras vilas próximas, pegam uma jardineira todo dia às 6 da manhã e atravessam as dunas de areia da região para cumprirem seus papéis de educadores.

Projetos extras auxiliam na formação humana

O aumento expressivo em avaliações governamentais é muito importante quando tratamos de aprendizagem de conteúdo curricular e índice de aprovação. Porém, questionei Vanderlin se os alunos de Jericoacoara também têm um ensino pensado na formação humana. Nessa hora, o diretor, que mostrava com muito orgulho e seriedade os avanços no Ideb e no Spaece (Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica, do Governo do Estado do Ceará), saiu um pouco de cena para a entrada de um educador entusiasmado com vários projetos curriculares e extra-curriculares.

"A escola tem muitos projetos. A gente precisa ocupar a cabeça dos alunos", comentou Maria Souza, responsável pela cantina enquanto vendida jujubas e dadinhos para as poucas crianças fora da sala de aula. Conversei também com Edna Marques, que deu aulas no colégio entre 1994 e 1998: "muitos alunos vem de famílias bem simples. Já na minha época fazíamos vários projetos para incentivarmos os estudos", disse. Edna também elogiou bastante a melhoria na infraestrutura da instituição.

O projeto que mais me chamou a atenção foi o “A comunidade onde vivo”. Multidisciplinar, tinha o objetivo de celebrar os 22 anos da criação oficial do município resgatando a história de quando Jericoacoara era uma vila de pescadores e mapeando diversos temas atuais da cidade. Vanderlin não sabia, mas estava fazendo um projeto de Educomunicação, a fusão de Educação e Comunicação. Nela, os estudantes ganham a liberdade de se expressarem através de produções próprias (como textos, fotos, vídeos e músicas), aprendem a analisar criticamente as informações que recebem e têm a possibilidade de produzirem um produto final com suas próprias mãos. No projeto, os alunos saíram da sala de aula e foram conversar com novos e antigos moradores da comunidade, trabalhando aspectos históricos, geográficos econômicos e culturais de Jericoacoara.

A EMEF Nossa Senhora da Consolação também realiza um projeto de leitura para o Ensino Fundamental I, no qual os alunos podem levar um livro pra casa todos os dias para lerem junto com a família. Além disso, há anualmente uma Semana de Arte e Cultura, onde os alunos desenvolvem projetos sobre a cultura local e do país. “Como Jericoacoara recebe muitos turistas, nossa cultura está perdendo lugar para outras culturas. Com projetos como o da Semana de Arte e Cultura conseguimos valorizar a cultura da vila”, explicou o diretor.

Rede de Educadores

Um dos objetivos do Escolas do Brasil é formar uma rede entre os educadores que conheço durante a viagem. Para isto, peço em cada escola que conheço um objeto que represente uma parte da história do entrevistado, que geralmente é a pessoa que faz a diferença na educação dos jovens daquela instituição. Em Belém, a professora Cristina Arruda deu um ramo de Carirú, uma planta típica do Pará. Repassei este ramo para Vanderlin, que não conhecia o Carirú, junto com os contatos da professora Cristina. Em troca, ele me presenteou com um CD com fotos da última semana de Arte e Cultura da escola. Quem será que vai ganhar este presente?

Professora conta história de superação em São Luis

Quase todas as escolas têm a figura do "aluno problema". Isso não foi diferente na vida da professora de Dayse Yoko, estudante de História na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e estagiária do Museu de Artes Visuais de São Luis.
 
Foi justamente quando me apresentava o museu que a conheci e descobri que Dayse ė um livro de histórias de superação, principalmente quando se fala de educação. Ela viveu e estudou na periferia de São Luis, passando até fome dentro da sala de aula. Conseguiu concluir o ensino médio, entrar na universidade federal e se tornar um exemplo para sua comunidade e para seus alunos.
 
A educadora me contou a história de Luis Carlos, o Goró. Considerado o típico "aluno problema", teve aulas com Dayse em 2011, quando cursava o terceiro ano do ensino médio na ETMA Dr. João Barcelar Portela. A professora conta a história de superação de Goró, que hoje estuda Biologia na Universidade Estadual do Maranhão, melhor do que ninguém no vídeo que gravei com ela no centro histórico de São Luis:

Não consegui localizar Luis Carlos para ouvir seu depoimento também. No entanto, vi que Dayse ajudou o aluno a mudar de vida tornando o jovem aparente e abrindo um canal de diálogo com o estudante. "Muitas vezes, o aluno de periferia não consegue enxergar que pode entrar na universidade. A gente não tem referência. São poucos os alunos que conhecem alguém que entrou na universidade. Muitos abandonam a escola antes de concluir o ensino médio, então quando um aluno consegue é muito satisfatório pra mim", explicou a ex-aluna de uma escola pública numa das periferias mais pobres de São Luis. A escola tinha chão de cimento bruto, merenda insuficiente e muitas vezes vencida, alunos desnutridos e até era alvo de tiros dos bandidos da comunidade.
 
Com esta história, Dayse nos ensina importância de tornar o aluno um indivíduo notado na sala de aula e na sociedade. Também destaca a abertura de um canal de diálogo para que este indivíduo realmente se torne um ser representativo e atuante na sociedade. E você? Já conseguiu ajudar um “aluno problema”  a superar desafios?

 

Falta d´água cancela visita em Teresina

Na última sexta-feira (22/03), eu visitaria a Escola Municipal Casa Meio Norte, uma escola na periferia de Teresina (PI), que eu estava muito curioso para conhecer pessoalmente. No entanto, a falta de água na cidade, que atingiu mais de 60% da cidade por três dias, fez a maioria das escolas públicas suspender as aulas.

Na quarta-feira anterior, uma oscilação de energia fez com que as bombas adutoras de água quebrassem. A temperatura média na cidade é de 32ºC, mas a sensação térmica é maior. Na sexta-feira, a situação se agravou e muitas escolas não puderam abrir suas portas. Faltou água para lavar banheiros, tomar banho, fazer a comida da merenda escolar e beber.

Busquei ver as consequências da falta d’água de perto. No entanto, estou hospedado no centro da cidade, onde a maioria das escolas é privada. Conversei com vários porteiros das instituições particulares que me contaram que as aulas só continuaram regularmente porque as caixas d’água eram grandes ou porque as escolas compraram água para os estudantes beberem.

A EM Casa Meio Norte não teve esta oportunidade e precisou suspender as aulas e cancelar minha visita enviando um e-mail no começo da manhã.  Isto apontou mais uma falha do poder público: além do problema da falta de água, não houve assistência para as escolas afetadas.

A escola fica em Cidade Leste, um dos bairros mais pobres e o mais perigosos da periferia teresinense. A instituição enfrentou a situação de pobreza e a violência da comunidade e se tornou referência na rede, principalmente pela atuação da diretora Osana Santos Moraes.

A escola teve crescimento de um ponto no Ideb entre 2005 e 2009, mas não apresentou bons resultados em 2011. A diretoria da EM Casa Meio Norte acredita que não é apenas o conteúdo que melhora o índice. Em várias entrevistas para outros veículos, frisou-se que é preciso fazer com que os alunos se sintam sujeitos ativos na sociedade. A escola, portanto, toma o papel de mediadora para o combate da desigualdade a partir da formação de cidadãos. Não pudemos aprofundar nossas pesquisas sobre a escola porque a falta d’água nos impediu de fazer a visita para ver o caso de perto. De qualquer maneira, a EM Casa Meio Norte é uma instituição bem interessante para se conhecer melhor.

Espero conseguir voltar em breve para Teresina para conhecer de perto a história da professora Osana e a experiência da EM Casa Meio Norte.

Nota: para tornar o post mais claro, realizamos pequenas alterações no dia 08/05.